Full Heartlines #2

O medo de ser intensa demais

Eu sempre ouvi que falava alto demais.

Que ria alto. Que chorava por uma resposta atravessada. Que mandava três áudios seguidos explicando o porquê de não querer te ver mais. E depois outros três pedindo para te ter de volta.

Tudo foi sempre demais e ao mesmo tempo.

E em algum momento, "demais" virou um defeito que eu precisava consertar.

Aprendendo a se diminuir

A gente aprende rápido que intensidade assusta. Que responder rápido demais parece desespero. Que demonstrar interesse afasta. Que chorar na frente de alguém é se expor demais.

Que mandar aquele texto vulnerável às 2 da manhã é praticamente pedir para não te ver nunca mais.

Então a gente começa a se corrigir.

Espera dez minutos antes de responder. Apaga metade do texto porque "ficou muito". Ri menos. Mas nunca sente menos. Finge que tanto faz quando, na verdade, sempre fez toda a diferença do mundo.

A gente se transforma em uma versão editada de si mesma, uma versão light e sem açúcar, que cabe em qualquer dieta.

O que nos torna interessantes

E no processo, a gente esquece o que nos torna interessantes.

As pessoas mais chatas que você conhece são justamente aquelas que a gente apelida internamente de "pessoas natureza morta". São pessoas absurdamente entediantes e assustadoramente esquecíveis.

As pessoas que a gente lembra, que fazem a diferença, que deixam aquela marca, essas são sempre as intensas.

São as que choram no cinema. As que mandam áudio de cinco minutos às 7 da manhã. As que sentem tudo sempre como se fosse a primeira vez.

O medo permanece

Mas mesmo sabendo de tudo isso, o medo de ser eu permanece.

O medo de que, se eu mostrar o quanto me importo, vou afastar você. Porque é tudo sempre você — que chatice — nem eu me aguento mais.

De que, se eu for eu mesma por inteiro, vou ser "too much" — e ninguém quer nada "too much" na era das clean girls. Viva o minimalismo de emoções e a apatia quase descolada.

It's so confusin' sometimes to be a girl (girl, girl, girl, girl).

O problema não é você

Talvez o problema não seja a nossa intensidade.

Talvez o problema seja que a gente vive achando que amar é receita de bolo. Que gostar é saber dosar. Três doses de desinteresse e uma pitada de crueldade.

Já esperei horas para responder aquela mensagem que queria responder na hora. Segurei o impulso de mandar "oi, tô com saudade" porque isso é tão carente que me faz lembrar de uma famosa pathological people pleaser.

A decisão

A intensidade não desapareceu, mas uma decisão foi tomada: se eu errar, que seja por excesso, não por falta. Nunca por falta. De falta já me basta você.

Se eu me arrepender de alguma coisa, que seja de dizer "eu te amo" e não do meu próprio pacto de silêncio feito no meu quarto em uma madrugada chorosa.

Vou continuar sendo demais — porque menos que isso seria mentira.

E eu nunca menti para você.

Esse texto é para quem já se desculpou por sentir demais. Para quem apaga mensagem depois de enviar. Para quem já ouviu "você é muito" e achou que era crítica. Para quem se força a esperar para responder mesmo querendo falar agora.