Full Heartlines #3
Eu te mandei três áudios de 1 minuto e você me respondeu com um estático e cruel "Ok". Naquele dia, eu troquei seu contato para "NÃO MANDAR MENSAGEM". E eu mandei, de novo e de novo.
Bem-vindos a um relato pessoal de uma mulher vivendo na era do amor digital, onde a comunicação virou um jogo de mensagens e links estratégicos de TikTok.
Vivemos um paradoxo irritante: nunca foi tão fácil se comunicar, mas também nunca foi tão difícil fazer com que elx responda. Os áudios longos são a expressão máxima do desespero de sermos ouvidos, compreendidos e capazes de explicar por que ainda estamos falando e falando e falando.
Algumas pessoas amam falando. Esse texto é para elas.
Para você que grava, apaga e grava de novo porque nunca soa certo. Nunca soa verdadeiro. Para você que manda áudio de três minutos começando uma briga que poderia ser resolvida em quatro ou cinco mensagens, mas você clama para que a pessoa entenda seus sentimentos confusos e o quanto aquilo realmente te machucou.
Pior que ser ignorada? Ser respondida com "ok". Porque aí você não pode nem reclamar. Tecnicamente, a pessoa respondeu. Tecnicamente, o recado foi passado. Mas você sabe, no fundo do seu coração ansioso, que aquele "ok" talvez signifique "eu não te aguento mais".
E a gente aceita. Porque a alternativa é o zero contato. É aquele status online que te assombra às 3 da manhã quando você sabe que a pessoa está lá, viva e com outra.
Todo mundo que ama, que ama de verdade, já renomeou algum contato para algo tipo "NÃO INSISTE", "VAI ACABAR MAL", "BLOQUEIA LOGO". É tipo aquele aviso na embalagem de cigarro. A gente lê, reconhece o perigo e acaba fumando mesmo assim depois de três ou quatro drinks.
Porque quem ama simplesmente não consegue parar. A gente precisa se explicar e se justificar. A gente manda o áudio sabendo que vai receber migalhas de atenção de volta, mas vai mandar mesmo assim porque pelo menos assim a gente sente que tentou. Que botou para fora.
A gente realmente acredita que se conseguir explicar direito, se usar as palavras certas, se a pessoa ouvir o tom da nossa voz, ela VAI ENTENDER. Ela vai finalmente entender. Vai sentir o que a gente sente, vai sentir de volta.
Spoiler: não vai.
Quem te responde com "ok" não está com preguiça de ouvir seu áudio. Ela está com preguiça de se envolver. E não tem áudio de cinco minutos que mude isso.
Seria muito mais fácil aceitar que algumas pessoas simplesmente não vão corresponder à nossa intensidade. Seria libertador renomear o contato e realmente não mandar mensagem dessa vez.
Mas a gente não desiste porque toda vez que a pessoa responde (mesmo que seja com um emoji), a gente sente que valeu a pena. Sentimos que fomos importantes por um minuto. E a gente se agarra nesses minutos como a Rose se agarrou naquela porta no naufrágio do Titanic.
A verdade é que a gente sabe. Lá no fundo, a gente sabe que se alguém realmente se importasse, essa pessoa não responderia com "ok". Ela mandaria um áudio de volta. Ela ligaria. Afinal, ela sempre teve nosso número. Ela daria um sinal de que nossa intensidade não é um fardo, mas um presente.
Mas a gente continua mandando áudios para as pessoas erradas porque é mais fácil do que admitir que estamos investindo amor e energia em quem não tem a mínima intenção de retribuir.
Se você é do time dos áudios longos, esse é seu lembrete: sua necessidade de se comunicar não é defeito. Você não é "too much". Você não é dramática. Ou talvez seja mesmo e tá tudo bem com isso.
O problema não é você mandar três áudios de um minuto. O problema é você mandar para quem te responde com "ok" e ainda assim continuar achando que você é o problema.
Pare de renomear contatos. Comece a bloquear. Ele te liga se precisar.
Esse texto é para quem já chorou olhando para a mensagem "visualizado" às 22:47. Para quem já apagou e regravou o mesmo áudio cinco vezes. Para quem sabe que deveria parar, mas não consegue. Você não está sozinha. Você só ama com palavras num mundo que prefere emojis.